Prof. José-Augusto França on E.T.

 

1996

O gesto de Eugénio Torrens é aberto como os veios da madeira donde parte. Uma árvore é um universo biológico em si mas o que está nele acorda-se ao que na floresta existe para sempre. Entre a árvore que se olha de perto, se palma e aspira e as árvores todas, que são mancha, uma corrente de vida passa, física e simbólica, e isso abre a cada uma delas a responsabilidade das outras, a necessidade do grande todo mundo.

Que Eugénio Torrens pratique a sua pintura sobre pranchas de árvore, ou folheados delas tirados, vem do fundo da sua própria memória suspensa, daquilo que em menino terá visto e observado, ou sobretudo sabido de ouvir falar, em casa de gente da madeira. Quem tem trato com a natureza mais funda, de águas ou árvores, ventos de vela ou searas da planície, nelas embebe  práticas, vidas, sonhos e comportamentos no seu quotidiano.

Acontece que eu sei donde vem Eugénio Torrens, e me ponho a imaginar (porque de madeiras soube também) o que a superfície duma árvore cortada em tábuas, ou folhas delas, pode ter sido para o pintor; e por ter sido na atmosfera da sua infância, jamais pode ter deixado de o ser. Daí muito do meu entendimento da pintura que nos mostra – e do seu “gesto aberto”.

Outros pintores (todos os outros pintores que conheço e não conheço) têm por eles a superfície virgem da tela (ou pior, horrivelmente, de uma madeira artificial, falsa como carne picada dum Mac. Something) e nela põem os gestos que tendem a fechar-se para justificarem a sua própria vontade. São pinturas que se acertam em si próprias por leis internas da teoria gestáltica, seja no “dripping” de Pollock, seja na “action” de Kline. Um quadro deles é um quadro certo, concebido no movimento necessário da mão, a si própria atenta, para a economia perfeita deste todo assim assumido. Admiravelmente, algumas ou muitas vezes.

Em Eugénio Torrens, não: cada quadro que realiza, sendo um quadro também válido na sua definição e nos seus limites físicos, por instinto do gesto do pintor que é o seu – é mais do que isso, ou para além disso está, elo de um discurso infinitivo, que a natureza do suporte, em madeira, justifica e exige. O seu gesto abre-se assim e não se fecha mais, na larga natureza em que por memória viaja, se integra e suspende. E cada quadro seu que se tenha em casa, ou se veja numa sala de museu ou galeria, conservando essa memória activa, atrai magicamente o todo que para além dele existe.

O todo está sempre em cada parte, é lição da filosofia antiga e, na verdade, não há partes que possam recusar a grande autenticidade do universo…

A pintura, a acção, o gesto de Eugénio Torrens é o exemplo que aqui mais perto temos, da abertura necessária aos caminhos da imaginação. Como Leonardo (ou Marx Ernst) mostrara, ao olhar nuvens no céu – ou veios de madeira na terra.

 

1992

Escolha feita num largo conjunto de mais de trezentas obras, as 20 recolhidas neste albúm (“Torrens, 26 manugrafias”) representam um trabalho de boa qualidade pictórica, equilibrado e comedido, tocando os seus próprios limites com um acerto modesto sob o qual uma real tensão existe. Uma tensão finamente elaborada, com uma doçura que responde a todo o convite de violência gestual – como se uma sabedoria oriental a conduzisse para além da cultura que imediatamente revela.

Este interessante cruzamento entre um agir manual onde alguma traça ibérica pode ser apercebida e uma fluência de pincel caligráfico agilmente movido, prova originalidade pessoal na diligência do pintor. E permite creditar-lhe um sentido de “absoluto” relativamente procurado.