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2012

Sinto-me tentado a afirmar que, em 1985 e em Portugal, Eugénio Torrens inventou um novo estilo de pintura: a Pintura Espiritográfica. Como ele próprio a descreve, trata-se da representação gráfica de um espírito ou alma humana, num determinado momento.

Poucos artistas se poderiam considerar como inventores de um novo estilo de pintura, e muito menos em finais do século XX.

A pintura de Torrens distingue-se de tudo o que se produziu até hoje, por um conjunto de elementos e técnicas, completamente novos:

  1. Madeira como suporte orgânico, e parte essencial da obra.
  2. Técnica pictórica de aplicação das cores por transparências sobre madeira.
  3. Formatos alongados, verticais ou horizontais, em homenagem às proporções físicas do corpo humano.
  4. Figuração abstracta da parte não física do ser humano (a alma)

Estas quatro características fazem da sua obra algo radicalmente original. Por palavras suas, algo “nunca antes visto”. Parafraseando o maior poeta português, eu diria que os seus quadros nos transportam “por mares nunca d’antes navegados”.

Desde 1992, tenho seguido a carreira do artista, e confesso que a sua obra me transmite uma força emocional fora do comum, porque ela é símbolo inequívoco de CORAGEM e de LIBERDADE, de um verdadeiro autodidacta / livre pensador. Algo cada vez mais raro nos nossos dias de consenso uniformizante.

Na história da arte, muito poucos criadores conseguem tamanha ruptura significativa com as convenções académicas. Mas essa é a autêntica e única função do artista: alargar as fronteiras do conhecimento. Somente a obra destes pertence aos museus, porque somente estes fazem história.

 

1994

Porquê a madeira?

A obra de Torrens encontra-se invadida, inundada pela matéria madeira. De facto a maioria das suas pinturas utilizam a madeira como suporte básico e fundamental da obra em si.

Não poderia ter deixado de perguntar ao artista a causa da sua eleição. Existem duas causas, uma estética/conceptual e outra anedótica.

Quanto à primeira causa, Torrens explica que a madeira é a matéria mais “humana” de que dispomos neste planeta. Serve para construir casas, carruagens, barcos e até aviões, serve para cozinhar e nos aquecer, serve para fabricar todo o tipo de móveis e objectos, serve para fabricar armas e utensílios. Mas a madeira, pela sua cor e textura, também se assemelha à carne humana. Ou seja, confere a uma obra espiritográfica o aspecto mais vital e orgânico possível.

Quanto à segunda causa, Torrens conta uma pequena história. Durante a Primeira Guerra Mundial, o seu avô paterno era o director em Portugal de uma companhia de navegação catalã, que faliu. Nessa altura, encontrava-se atracado no Porto de Lisboa um dos navios da referida empresa, dentro do qual tinha ficado uma máquina que ninguém sabia para que servia. O seu avô descobriu que se tratava de uma das primeiras máquinas do mundo para fabricar contraplacado. Comprou-a e fundou a empresa Torrens, Lda, que mais tarde se transformou em Torrens & Marques Pinto, Lda, e que até 1972, foi a referência número um do sector madeireiro em Portugal.

Sorrindo, Eugénio Torrens diz que continua com o negócio da família. Continua a vender contraplacado, embora um pouco mais caro.

 

1992

Pintura abstracta, na medida em que carece de representação de objectos materiais reconheciveis. No entanto, uma forte figuração  significativa se afirma. Trata-se da representação plástica de um “objecto” não material: uma alma num determinado estado de espírito.

Este tipo de pintura, a que o artista chama “espiritográfica”, requer uma leitura especial. Não devemos procurar elementos significativos factuais, objectivos, literais. Devemos procurar elementos formais plásticos, representativos de uma emoção e de um sentimento. Estamos perante a “encarnação” de um ente psíquico – espiritual.

Eugénio Torrens é mais um convencido de que Deus fala directamente aos homens através da arte.