Jaume Vidal on E.T.

 

1998

Uma Ponte Entre Dois Mundos

 

Seria simples e acertado, no entanto, incompleto, inserir a obra de Eugénio Torrens dentro de alguma das correntes artísticas do nosso século. A sua paixão e apetência pelo gesto e a sua maneira de considerar o quadro como sendo um processo em trânsito permanente que o leva a pintar um atrás do outro, poderiam situá-lo na action paiting, ou seja no expressionismo abstracto norte-americano. Mas a sua vocação humana e criativa vai mais longe. Torrens é aquilo que poderíamos designar um artista-ponte. Isso porque na sua biografia pessoal traçou uma ligação entre a cultura mediterrânea e a atlântica, entre duas cidades que amam de igual forma o caminho aberto do mar, Barcelona e Lisboa. E, ainda, porque no seu trabalho tenta unir a beleza material ao prazer sensitivo.

Este percurso vital, que inclui também estadias em Londres e Nova Iorque, fica inteiramente expresso na sua obra. Os seus quadros são pequenas estações de uma longa viagem. As obras só têm sentido individualmente ao se aperceber em cada uma delas a necessidade de recuperar o fôlego para continuar um trajecto certamente enigmático. Não se trata de chegar a um local concreto: é na viagem onde está a razão da sua vida e da sua obra.

Embora de ascendência catalã, Torrens nasceu em Lisboa, em 1958. Não é por acaso o facto da sua vida estar ligada a Portugal, um país que conta com as mais belas pontes de toda a engenharia moderna. Este arquitecto do sensitivo – abandonou os estudo de Arquitectura formal, como dantes o tinha feito com os de Fotografia – conseguiu também conjugar a civilização ocidental e o sabor ancestral de África pela utilização da madeira de okume como tela. O protagonismo da madeira, cujo aroma evoca os cheiros da infância do artista, torna-se definitivo nos seus quadros. Torrens pinta de maneira que o cromatismo permita um jogo de transparências que realcem o desenho das veias e os nós da madeira. As cores da sua paleta são de uma matizada inspiração mironiana, aquelas que Joan Miró teria utilizado se tivesse nascido na outra margem da Península. Os azuis, os alaranjados e mesmo os brancos lutam para impor a sua lei. Mas, mais uma vez, a força orgânica da madeira é a que distribui tonalidades e marca as hierarquias da cor nas suas obras.

Todavia, no mundo alegórico de Torrens as pontes não são apenas estendidas entre duas margens opostas. Para o artista, a ponte é também o caminho. A modo de reflexo de espiritualidade, Torrens escolhe uns formatos que nada têm a ver com os espaços delimitados. As grandes superfícies abertas horizontais, ou bem o uso cada vez mais frequente do formato vertical, reforçam o sentido de transcendência humana e de profana religiosidade que exprimem as suas obras. Como reflexo desta viagem espiritual, Torrens tenciona construir o quadro mais alto do mundo. Um projecto que leva implícito o simbolismo de que a arte é um dos melhores materiais para construir uma sólida união entre os aspectos mundanos da pessoa e os valores mais humanísticos. É por isso que Torrens sonha com uma obra que chegue ao céu, única atalaia donde as diferenças entre homens e mulheres se tornam substanciais.

Ao contemplar a obra de Torrens é fácil imaginá-lo num delírio criativo, contorcendo o gesto quando o grosso pincel está a marcar um dos territórios do quadro. Vivendo com intensidade em sentimento contraditório de prazer e de dor em cada pincelada. Cada traço ocupa um espaço do quadro, mas esse não será exclusivo. Sem negar a mancha de cor anterior, uma outra pincelada vai ocupar o mesmo lugar. Nos quadros de Torrens, nada é excludente.

Para compreender a personalidade e o trabalho de Torrens é importante verificar a sua maneira de procurar o que é certo pela via de assumir a possibilidade do erro. Torrens deixa a marca, em cada um dos movimentos do seu pulso, da força que o levou a criar. Nesse sentido, a sua obra é autêntica e sincera e demonstra que este artista entendeu perfeitamente que a arte supera os limites do estético e nos proporciona interrogações e respostas relativamente ao mundo que nos envolve.

Eugénio Torrens, com esta magnífica exposição, sugere-nos de uma maneira cálida e afectuosa a possibilidade de realizar uma pequena viagem pelo conhecimento e a sensação. O que é o mesmo que nos dizer que a arte é sempre um convite para melhorar a condição humana.