João Osório de Castro on E.T.

 

1992

Sempre me reconheci possuído por um permanente fascínio, face ao mistério da criação artística.

Até pela experiência própria!

No meu alinhar de palavras, que como bruscas pinceladas deito para o papel, na tentativa de compor, num encandear harmonioso de sons, a definição das minhas ideias, reconheço-me inevitavelmente desarmado, inquieto.

Uma questão: “ Quantas vezes, nós artistas da palavra, podemos acreditar que as nossas luminosas intenções, advieram finalmente claras para a compreensão universal?!” Poucas”, direi. “Estão de acordo?” pergunto.

Se a constatação é tantas vezes pungente para os poetas, para os escritores que dispõem de matéria-prima familiar, multisecularmente divulgada, como não imaginar a angústia de um pintor, de um escultor?! Só encontro uma solução.

Há, quanto às artes plásticas, toda uma longa aprendizagem a percorrer!

Para o êxito progressivo dessa aprendizagem, o testemunho, a vivência com os artistas plásticos é essencial. Felizmente, quase todos eles escrevem sobre o que fazem e pensam fazer e, não poucas vezes são poetas mesmo quando não compõe versos. Por várias vezes consegui atravessar cortinas, no decorrer de longas e apaixonantes conversas, entre outras com artistas como Almada Negreiros e Espiga Pinto.

Eugénio Torrens, de chofre, como se estivesse a pedir algo de simples, solicitou-me com confiança desmedida, para lhe escrever umas palavras de introdução para o catálogo de mostra do conjunto de quadros que identifica com a designação de “Um homem, uma mulher e uma barra”.

A já prometida visita ao Atelier do Artista na Atalaia, tornou-se indispensável. Um barco esboçado, atirado para a terra, está ali ancorado sobre o Atlântico. É um vasto, invulgar local de trabalho.

O dia mostrava-se aparentemente chuvoso e triste. Ao entrar no bojo do navio, depressa apreendemos que, mesmo aquele tempo, poderia ser favorável à tentativa de descobertas que com curiosidade nos animava.

O artista jovem, que sabia nascido de um milagre, estava lá, à espera, sereno, sorridente, com a determinação de um herói.

Falámos do local, da aculturação visível de várias cruzas de informação. À Catalunha, naturalmente presente. Falámos de pessoas da sua ascendência. Do avô, que não conheceu. Relembrámos comovidamente o seu Pai que viveu para ele os seus últimos anos. Queria-o arquitecto, um artista, como ele era, mas não o tinham deixado ser.

Não é indiferente a porta por onde se entra no mundo!

Reconheço-lhe traços, entusiasmos comedidos, semelhanças de atitudes, que me comovem.

Estou ali para perceber. Não é fácil. Passeio-me, sem perguntar, num reconhecimento atento. Mais de 95% do trabalho do artista é feito sobre painéis de madeira ao alto. São “barras”, como ele as declara. “Funcionam como escultura da figura humana”, disse. Eu funciono devagarinho, com atenção. Não há peças ligadas. Trípticos raros.

Desejo ver algo que me dê a dimensão do desenho rigoroso, na abstracção, quando aquele se torna mais necessário.

Descubro-lhe o traço certo, claro, exacto na fluidez dos tons nos trabalhos de impressão executados na prensa rústica, a imprimir sobre “papiros”.

Calo-me. Não arrisco opiniões.

Avanço ao encontro de um conjunto de barras expostas ao alto, atacadas por fluxos de energia, por diabruras mescladas de azul, de amarelo, de verde. Surpreendo-me. Medito. Fico a conhecer, com a ajuda compenetrada do pintor, que significam “Amor Rústico”.

Reconheço-me com ele a descobrir campos que nunca vi…

Estamos perante algo novo. Pressente-se.

Cheguei tarde. É tardíssimo. Vamos almoçar junto ao mar.

Concordámos que a maioria das pessoas não está preparada para “ver na obra de arte para além da obra”. Não conseguem na maior parte das vezes reverem-se nela “a si próprias e não à obra”.

Tudo o que se refere às artes plásticas é ignorado nas escolas, também referimos e reconhecemos. Tudo o que lhes diz respeito é inexplicavelmente vedado ao estudo das juventudes. E também concordámos por unanimidade, o mesmo acontece quanto ao estudo dos adultos.

Talvez a razão para tão grande lacuna, assente no facto dos seus meios de expressão se comporem de tão pouco… Não pertencem aos cânones das convenções dos caracteres escritos nem mesmo das regras das notas musicais que se podem referir em compêndios, difundir, ensinar até pela televisão.

Tanto pior, é de ver, para as massas e para os pintores!

Estes, libertos pela fotografia, do pesadelo da imitação, empenham-se deliberadamente pela criação, pela representação de sentimentos, naturalmente dos sentimentos dos humanos.

Tão difícil!

As barras com os trabalhos a expor, sob o tema “Um homem, uma mulher e uma barra” estavam encostadas, sobrepostas, a uma parede.

O Artista, serenamente, foi colocando as barras por ordem, que ficam soltas, afastadas uns centímetros umas das outras. Não é ali possível perceber barras isoladas. Elas ligam-se, para transmitir espiritualidade primeiro. Repara-se depois numa evidente certa carga de erotismo que não macula a impressão de espiritualidade. Pelo contrário, a estimula, a sublima.

A pouco e pouco, a unidade de uma vasta representação de possíveis sentimentos humanos está presente nas barras alinhadas lado a lado.

Dir-se-ia então que um intenso desejo de gritar anima aquelas barras.

Então, servida por uma segura técnica de revelação pictorial, começa-se a perceber, a entrar na orgia da estimulação sensorial, num observar atento, repetido, do começo para o fim, do meio para o fim, para voltar de novo do princípio para o fim. É a aventura da descoberta.

São profundas, chocantes pela revelação possível, as surpresas, que as suas suaves técnicas da aguarela, aplicadas sobre a base de madeira venada, por vezes também subtilmente aproveitada, para fazer parte da pintura, podem intensamente provocar.

O autor fala com veneração comedida do que apelida da sua pintura espiritográfica. Há alguma correlação religiosa na afirmação, percebe-se!

Ele fala então. Sabe bem que está perante alguém que gostando de pintura moderna, não é seguramente um crítico abalizado nem um sofisticado comprador sequer.

Mas também sabe que está perante alguém que é talvez capaz de reconhecer com seriedade que está perante uma aposta bem meditada, servida por uma evidente marca de profissão, à procura da originalidade.

Então esclarece. Com a tal determinação de herói, conta, explica. Há muitos anos de trabalho realizado; muitos haveres comprometidos na aposta, sem desfalecimentos, com a coragem que não vai fraquejar. Esse trabalho por sério, está a ser conhecido, a obter o concurso, o aplauso dos seus aficionados. É assim que se avança!

Por que será que ver muita pintura, falar algumas horas com os pintores cansa tanto?

Lembro-me que saí extenuado do estúdio do Mestre Almada Negreiros, ao fim de durante cerca de 3 horas, ele, já com perto dos 75 anos, me ter estado a demonstrar que “só agora tinha descoberto a pintura, os novos e misteriosos meios de expressão que ela permite!”.

Também saí emocionado daquele estranho navio ancorado sobre o Atlântico, extenuado de ouvir Eugénio Torrens, a falar-me, com entusiasmo, da sua constante procura do misterioso infinito, que ele conhece agarrado às marcas da finita passagem dos homens por este nosso mundo.

A sua convicção é tão grande, a sua segurança tamanha, que, cheguei a pensar, se não a ouvir, que ele na sua aposta como pintor, tem ainda parte de uma prometida e solene vingança a cumprir.